Chegou a “Era dos Espiões” em Washington?

Da esquerda para a direita: Dmitry Orlov, Alexander Ovechkin e Evgeny Kuznetsov. Com os dois primeiros nascidos na União Soviética e o outro nascido um ano depois, os russos têm longos contratos com o Washington Capitals.

RIO DE JANEIRO, RJ – A segunda metade do século XX foi marcado pela Guerra Fria, disputada entre os Estados Unidos e a União Soviética. A relação entre a Casa Branca e o Kremlin eram tensas, fazendo com que, por muito tempo, o mundo temesse uma guerra nuclear. A disputa, que durou entre o fim da Segunda Guerra Mundial até a dissolução da União Soviética, também teve seus impactos no hóquei, sendo um deles o fato de que muitos dos jogadores nascidos na antiga potência rival dos EUA fizeram e alguns ainda fazem história na NHL.

O ano era 1974. Dois fatos históricos aconteceram este ano em Washington, DC: a capital viu a estreia do time da cidade, o Washington Capitals, na NHL para a temporada 1974-75. Mas antes, outro fato histórico inserido no contexto da Guerra Fria: a renúncia do presidente Richard Nixon, do Partido Republicano, após o escândalo de Watergate. Outro fato durante a Guerra Fria foi o conflito conhecido como Guerra do Vietnã, que durou entre 1955-1975. No ano seguinte, os EUA se viram derrotado no país asiático, com muitas baixas dos soldados norte-americanos, o que fez surgir protestos em todo o país. O time, então, surgiu num momento de grande dificuldade e tensão que o país passava.

Falando em hóquei e Guerra Fria, é impossível não se lembrar dos Jogos Olímpicos de Inverno de 1980, quando o jovem e amador time dos Estados Unidos venceu a lendária equipe da União Soviética na semifinal por 4-3. O “Milagre no Gelo”, como ficou conhecido o feito, deu a vaga na final aos EUA e o time derrotou a Finlândia dois dias depois, conquistando o ouro.

Ex-jogadores

Milan Nový se tornou o primeiro jogador nascido na então Checoslováquia, que era um Estado satélite da União Soviética, a jogar do Capitals, entrando para o time na temporada 1982-83. Na época, poucos jogadores destes países eram selecionados no draft, pois não havia a certeza de que seriam autorizados por seus países a jogar nas franquias da NHL – Estados Unidos e Canadá. Poucos jogadores foram permitidos a jogar no ocidente, sendo um deles Nový, pelas autoridades do hóquei checoslovaco.

Rod Langway, conhecido como “Secretário de Defesa”, foi capitão e defenseman do Capitals, jogando no time a partir da temporada 1982-83 até a temporada 1992-93. Uma das maiores lendas de todos os tempos do time, teve sua jersey #5 imortalizada pela franquia, tornando-se o segundo dos quatro a receberem tal homenagem. Mas… o que Langway tem a ver com o assunto em questão? Outro país de ideologia oposta aos EUA entra em cena no contexto da Guerra Fria: a China. Langway nasceu no Taiwan pois seu pai era um soldado dos EUA e estava la à serviço, tornando-se o primeiro e único até então a ter nascido neste país a jogar na liga. O país insular serviu de refúgio para Chiang Kai-shek, o líder do Partido Nacionalista Chinês, quando ele e suas forças foram expulsos pelas tropas comandadas por Mao Tse Tung, em 1949. Desde então, o Taiwan aproximou-se dos Estados Unidos. Langway até hoje é o jogador do Caps com o melhor plus-minus numa temporada, com +117.

Michal Pivoňka, assim como Nový, nasceu na então Checoslováquia, se tornando um dos principais jogadores do esporte no seu país. Porém, ao contrário de Nový, teve que desertar de sua terra natal para jogar na NHL. Foi a 59ª escolha geral no draft em 1984, mas sua estreia pelo time foi a partir da temporada 1986-87. Antes de Nicklas Backstrom, Pivoňka era o jogador com mais assistências na história do Capitals, com 418.

Peter Bondra nasceu na Ucrânia, mas se mudou para a Checoslováquia. “Bonzai”, como é chamado pela torcida, foi a 156ª escolha geral no draft de 1990 como cidadão soviético, já no fim da Guerra Fria e se tornou cidadão da Eslováquia em 1994, com a separação do antigo país. Bondra se tornou um dos maiores jogadores da história da franquia, tendo feito parte do elenco que conquistou a Conferência Leste de 1998. Antes de Alex Ovechkin, Bondra era o jogador com maior número de gols (472) e pontos (825) na história da franquia pela qual jogou 961 jogos. Pela seleção da Eslováquia, fez dois gols ,incluindo o gol da vitória por 4-3, na memorável final contra a Rússia pelo Mundial da IIHF em 2002, sediado na Suécia, dando ao seu país o primeiro e único ouro de sua história. Até hoje é o jogador que detém os recordes da franquia de maior número de shorthanded goals numa temporada (6) e na carreira (32) e maior número de game-winning goals numa temporada (13). Participa frequentemente dos Alumni Games (jogos entre ex-jogadores da equipe), sendo sempre recordado como um dos maiores ídolos na história do time.

A 14ª escolha geral no draft de 1992 pelo Capitals, Sergei Gonchar, nascido na Rússia Soviética, foi um defenseman que fez parte da conquista da Conferência Leste de 1998. Marcou seu nome na história da franquia também por ser o defenseman com mais powerplay goals na carreira (53). Em 2009, venceu uma Stanley Cup pelo arquirrival Penguins, equipe pela qual atualmente é o técnico em desenvolvimento de defesa.

Em 2001, o Capitals arriscou alto: contratou Jaromir Jagr, trocando três jovens prospects para o Pittsburgh Penguins. Jagr assinou o maior contrato na história da NHL – US$77 milhões ao longo de 7 anos, recebendo um salário médio de US$11 milhões por ano (mais de US$134 mil dólares por jogo), com opção para um oitavo ano. Jagr foi mais um nascido na Checoslováquia, porém, o contrato caro não refletiu em um grande rendimento dele no time. O jogador, que venceu duas Stanley Cups (1991 e 1992) pelo Penguins, arquirrival do Capitals, foi negociado para o New York Rangers na temporada 2003-04. No total, Jagr jogou em oito franquias da liga e é o jogador mais velho em atividade na mesma.

O Hall of Famer Sergei Fedorov nasceu em Pskov, União Soviética e teve que desertar para jogar na NHL. Nomeado como um dos 100 maiores jogadores da história da NHL, o russo jogou pelo Capitals ao lado do compatriota Ovechkin por duas temporadas (2007-08 e 2008-09). Porém, entre suas conquistas em sua grande carreira estão três Stanley Cups pelo Detroit Red Wings, sendo uma delas em 1998, sobre o Capitals. Também contra o Capitals, teve uma marca bem rara: marcar cinco gols numa única partida, quando o Red Wings venceu o Caps no OT por 5-4 em 26 de dezembro de 1996. Também no Red Wings, Fedorov fez parte do Russian Five, também conhecido como Red Army ou The Wizards of Ov Pela primeira vez na liga, toda uma linha foi composta por jogadores russos: no ataque Fedorov jogou ao lado de Igor Larionov e Vyacheslav Kozlov, enquanto a defesa era composta por Vladimir Konstantinov e Viacheslav Fetisov. Pela União Soviética, venceu os Mundiais de 1989 e 1990. Pela Rússia, venceu o Mundial de 2008. Pelo Capitals, fez o gol da vitória sobre o Rangers no Round 1. O Caps venceu o Jogo 7 por 2-1 (o primeiro gol foi marcado por Semin).

Alexander Semin nasceu em Krasnoyarsk, União Soviética. Grande amigo do atual ídolo Alex Ovechkin, Semin foi draftado pelo Caps em 2002 como a 13ª escolha geral, mas houve uma grande controvérsia em relação ao serviço militar obrigatório, no qual os homens russos devem servir por ao menos dois anos. Para os que jogam hóquei, a Rússia permite que os jogadores se dediquem exclusivamente ao esporte, mas desde que seja no próprio país. Curiosamente, Ovechkin, somente um ano mais novo que Semin, conseguiu jogar na NHL sem precisar prestar nenhum tipo de serviço militar. Semin fez a estreia pelo Capitals em 2006 e fez um bom trabalho ao lado de Ovechkin e Nicklas Backstrom. Foi para o Carolina Hurricanes na temporada 2012-13, depois para o Montreal Canadiens e agora joga no Metallurg Magnitogorsk, da KHL (Kontinental Hockey League).

 

Os atuais jogadores

Alex Ovechkin nasceu em Moscou, na Rússia Soviética. Seu pai Mikhail foi um jogador de futebol e sua mãe, Tatyana, uma lenda do basquete soviético: venceu dois ouros olímpicos em 1976 (Montreal) e 1980 (Moscou). Ovechkin sempre amou o esporte desde pequeno e sempre se destacou. Chegou ao Caps num momento conturbado do time e da liga. O Capitals teve que trocar Bondra e alguns outros jogadores como uma forma de cortar os gastos. O time havia terminado a temporada 2003-04 como o último colocado da então Divisão Sudeste e penúltimo colocado da Conferência Leste, com 59 pontos e na frente somente de seu arquirrival, Pittsburgh Penguins (da Divisão Atlântica), com 58. Na Conferência Oeste, esteve na frente somente do Chicago Blackhawks que também tinha 59 pontos, mas o Capitals levou a melhor por ter mais vitórias, o que fez do Capitals o antepenúltimo lugar geral da liga. A equipe ganhou a loteria do draft de 2004 e selecionou Ovechkin, mas sua estreia teve que ser adiada devido ao lockout que cancelou toda a temporada 2004-05. Ovechkin se tornou um símbolo da franquia, de seu país e do esporte, sendo um dos maiores artilheiros da atualidade. Ovi continua fazendo história a cada temporada que passa. Primeiro, recebeu o Calder Memorial Trophy como o novato do ano da liga.  Foi selecionado por oito vezes para o All-Star Game, ganhou o Art Ross Trophy em 2008 (dado jogador com mais pontuou na temporada), com 112 pontos e ganhou seis vezes o Maurice “Rocket” Richard Trophy em 2008, 2009, 2013, 2014, 2015 e 2016 (dado ao jogador que mais marcou gols na temporada). Se tornou o jogador com mais gols e pontos na história da franquia, superando Peter Bondra. Atualmente Ovechkin tem 558 gols e 477 assistências, totalizando 1035 pontos. Além disso, é o novo recordista da franquia em: mais gols numa temporada (65 em 2007-08), mais gols numa temporada como novato (52 em 2005-06), mais powerplay goals numa temporada (24 em 2013-14), mais powerplay goals numa temporada como novato (21 em 2005-06), mais powerplay goals na carreira (191 até aqui), mais game-winning goals na carreira (86 até aqui), mais pontos numa temporada como novato (em 2005-06) e mais disparos a gol numa temporada (528 em 2008-09). Pela Rússia, venceu três Mundiais da IIHF (2008, 2012 e 2014). Pela liga, Ovi é o recordista com mais gols numa temporada por um ala-esquerda (65 em 2007-08) e o russo com mais gols na liga.

Nascido em 1992, Evgeny Kuznetsov é o primeiro e único russo da equipe até então que nasceu no país após a dissolução da União Soviética. Foi selecionado como a 26ª escolha geral pelo Capitals em 2010, mas seua estreia se deu na temporada 2013-14. Esteve ao lado de Ovehckin no time que conquistou o ouro no Mundial da IIHF em 2012 e 2014. No dia 27 de abril de 2015, fez o gol da vitória sobre o New York Islanders no Jogo 7 do Round 1, que ficou eternizado na memória dos torcedores. Em 2016, jogou no All-Star Game substituindo Ovechkin, que sofreu uma lesão. “Kuzy”, como é chamado pela torcida, é um titular indispensável da equipe, renovando seu contrato recentemente por oito anos e receberá um total de $63.4 milhões.

Dmitry Orlov nasceu em Novokuznetsk, União Soviética em 1991, ano no qual aconteceu a dissolução, sendo o último jogador do Caps a ter nascido na Rússia Soviética. Foi draftado pelo Caps como a 55ª escolha geral em 2009, mas demorou para se firmar no time, jogando às vezes pelo Capitals, às vezes pelo Hershey Bears, afiliado do Capitals na AHL. O defenseman se firmou no time a partir da temporada 2015-16. Recentemente, assim como Kuznetsov, teve seu contrato renovado (os longos contratos, junto com Ovechkin, inspiraram este artigo). Orlov receberá 30.6 milhões em seis anos.

Jakub Vrana nasceu em 1996 na República Checa. Com a dissolução da Checoslováquia, surgiram a República Checa e a Eslováquia. Vrana, que foi draftado como a 13ª escolha em 2013, já demonstrou ser uma grande promessa, conquistando espaço aos poucos mas já tem grande carinho da torcida. Se destacou na última temporada no breve período em que foi chamado. A expectativa é de que tenha maior participação no Capitals este ano.

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